Um pouco de Malala Yousafzai:

O que faz uma criança querer tanto ir para a escola? Talvez, para muitos de nós, essa pergunta pareça estranha. A escola está ali. O caderno está na mochila. A professora espera na sala. Existe uma certa naturalidade em imaginar que toda criança pode estudar.

Mas e quando não pode?

Foi a partir dessa pergunta que, em uma roda de conversa na nossa biblioteca, conhecemos um pouco mais sobre a história de Malala Yousafzai. Assistimos ao documentário exibido pelo Fantástico e, depois, deixamos que a conversa acontecesse do jeito que mais gostamos: com espaço para perguntas, dúvidas, curiosidades e até aquelas perguntas que fazem todo mundo rir, como quando alguém quis saber se Malala já tinha feito EJA. E talvez seja justamente isso que torna uma roda de conversa tão bonita. Não existe pergunta certa demais ou simples demais, existe curiosidade e a vontade de entender.

E a história de Malala é uma daquelas que fazem a gente querer entender um pouco mais.

Malala nasceu em 1997, em Mingora, no Vale do Swat, no Paquistão. Filha de um professor e defensor da educação, cresceu em um ambiente em que a escola fazia parte de sua vida. Ainda muito jovem, começou a falar publicamente sobre o direito das meninas de continuarem estudando. Quando tinha apenas 11 anos, passou a escrever anonimamente para a BBC sobre sua vida sob o avanço do Talibã no Vale do Swat e sobre o medo de perder aquilo que mais gostava: a escola. Com o tempo, sua voz ficou conhecida. E, justamente por isso, passou a ser ameaçada. Em outubro de 2012, aos 15 anos, Malala foi baleada pelo Talibã quando voltava da escola. Sobreviveu ao ataque, foi levada ao Reino Unido para tratamento e, em vez de abandonar a causa que quase lhe tirou a vida, continuou falando sobre aquilo que havia defendido desde o início: o direito de meninas e meninos estudarem. Dois anos depois, em 2014, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos, tornando-se a pessoa mais jovem a receber a honraria. O prêmio reconheceu sua luta pelo direito de toda criança à educação. Mas talvez o mais importante da história de Malala não esteja no Nobel, nem nos discursos, nem na quantidade de pessoas que passaram a conhecer seu nome. Está em algo muito mais simples: ela queria continuar indo para a escola.

E isso nos faz pensar.

Por que uma criança precisaria ser corajosa para fazer algo que deveria ser um direito? Educação não deveria ser privilégio. Não deveria depender de onde uma criança nasceu, de quanto dinheiro sua família tem, de ser menino ou menina, de sua religião, de sua cor ou das circunstâncias em que cresceu. Estudar deveria ser uma possibilidade garantida para todos, e não uma conquista pela qual algumas crianças precisam colocar a própria vida em risco. É justamente por isso que a história de Malala conversa tanto com o que acreditamos. Uma biblioteca pode parecer um espaço pequeno diante de problemas tão grandes. Mas é aqui que muitas coisas começam, uma criança escolhe um livro, faz uma pergunta. Descobre uma pessoa que nunca tinha ouvido falar. Percebe que existe um mundo muito maior do que aquele que conhece. Aprende uma palavra nova, discorda muda de ideia, começa a imaginar possibilidades. Talvez seja assim que a educação também se transforme, não necessariamente de uma vez, não necessariamente de uma forma que conseguimos medir. Às vezes, começa simplesmente quando alguém percebe que tem direito de perguntar. Malala continua trabalhando pela educação de meninas por meio do Malala Fund, organização que fundou com seu pai, Ziauddin Yousafzai, em 2013. O trabalho da organização busca fortalecer políticas e investimentos para que meninas tenham acesso e consigam completar 12 anos de educação gratuita, segura e de qualidade. Atualmente, o Malala Fund atua em países como Afeganistão, Brasil, Etiópia, Nigéria, Paquistão e Tanzânia. E talvez exista algo especialmente bonito nisso: Malala não ficou apenas contando a própria história. Ela decidiu usar a visibilidade que conquistou para abrir espaço para tantas outras meninas que ainda não tiveram a oportunidade de contar as suas, até porque não se trata apenas de uma Malala, existem milhares de meninas que querem estudar, meninas que querem ser médicas, professoras, engenheiras, artistas, atletas, pesquisadoras. Meninas que ainda precisam atravessar barreiras que nunca deveriam existir. Meninas que precisam apenas daquilo que toda criança deveria poder ter: tempo para aprender, segurança para crescer e liberdade para imaginar o próprio futuro, quando terminamos o documentário e começamos a conversar, talvez ninguém tenha saído dali com uma resposta definitiva, mas saímos com perguntas, e, para nós, isso já é uma forma de educação, porque talvez uma biblioteca não exista apenas para oferecer respostas.

Às vezes, ela existe para apresentar uma história que faz uma criança levantar a mão e perguntar:

“Mas por que isso não podia ser diferente?”

E talvez seja justamente aí que alguma coisa começa a mudar.