Quantas vezes alguém nos amou e não percebemos?

Talvez essa seja uma das perguntas que ficaram depois do encontro com Felipe Deds, na Biblioteca Comunitária Sabiá do Saibro Sábio. Poeta, artista, escritor e mediador, Felipe parece ter encontrado na arte não apenas uma profissão, mas uma forma de estar no mundo. Talvez sua grande fonte seja justamente essa: estar em contato com a cultura, com as pessoas, com as palavras, com aquilo que pode ser criado pelas mãos e, principalmente, com aquilo que pode ser transformado dentro de quem escuta. Foi bonito presenciar alguém fazendo aquilo de que gosta. Uma criança, em determinado momento, disse algo que pareceu traduzir perfeitamente o sentimento de quem estava ali: como é bonito ver alguém trabalhando com o que gosta. E talvez seja mesmo. Eu sempre pensei naquela velha pergunta: é melhor trabalhar com aquilo que se ama ou com aquilo que dá dinheiro? Ainda não sei se existe uma resposta certa. Hoje, tenho o privilégio de trabalhar com algo que amo, mas foi olhando para o Felipe, feliz por estar conosco, compartilhando sua arte e sua presença com tantas crianças e adultos, que uma certeza pareceu se acomodar um pouco mais dentro de mim: quando existe a possibilidade de escolher, trabalhar com aquilo que se ama talvez seja uma das escolhas mais bonitas que podemos fazer. Felipe trouxe para a biblioteca a história de O homem que amava caixas, de Stephen Michael King, e, a partir dela, abriu uma conversa muito maior do que a própria história. Falamos sobre as palavras, sobre o impacto que elas podem ter, mas também sobre tudo aquilo que existe para além delas. Porque palavras são capazes de dizer “eu te amo”, “eu me importo”, “eu quero o teu bem”, mas existem pessoas que talvez nunca tenham aprendido a dizer essas coisas dessa forma. E, ainda assim, amam. Talvez o amor também esteja nas perguntas do cotidiano, naquele “chegou bem?”, no cuidado que parece pequeno, no alimento deixado separado, na companhia, na preocupação, no abraço, na presença, em uma caixa construída com as próprias mãos. Talvez existam pessoas que nos amaram a vida inteira, mas que falaram uma linguagem diferente da nossa. E talvez, algumas vezes, tenhamos deixado de reconhecer um gesto de amor simplesmente porque ele não tinha a forma de amor que conhecíamos. Acho que essa foi uma das coisas mais bonitas que Felipe nos ajudou a perceber. Que existem muitas maneiras de dizer. E que, se as palavras têm força, os gestos também têm. No WimBelemDon, trabalhamos muito com as palavras, com a literatura, com as histórias, com aquilo que pode ser contado e compartilhado. Mas também acreditamos profundamente nas atitudes. Porque transformar uma realidade exige mais do que dizer que queremos transformá-la. É preciso estar presente, fazer, construir, abrir portas, criar oportunidades e, principalmente, acreditar que cada pequeno gesto pode alcançar alguém. E foi justamente entre palavras e gestos que a tarde continuou. Depois da conversa, tivemos uma oficina de fanzines. Os fanzines são pequenas publicações independentes, feitas de maneira artesanal, que surgiram ligadas a movimentos de expressão e circulação de ideias fora dos meios tradicionais. São feitos por quem quer dizer alguma coisa, do seu próprio jeito, com liberdade para experimentar, recortar, escrever, desenhar, colar e criar. E foi isso que fizemos: cada participante pôde construir seu próprio fanzine, pensando sobre o amor, sobre como o sentimos e, principalmente, sobre como o demonstramos. Foi uma oficina cheia de carinho, escuta e delicadeza na ponta dos dedos.

Entre papéis, recortes, palavras, desenhos e pequenas histórias, cada pessoa encontrou uma maneira própria de falar sobre algo que, embora tão presente em nossas vidas, nem sempre sabemos explicar. E talvez essa seja uma das belezas da arte: ela nos permite dizer aquilo que, às vezes, a fala sozinha não alcança. A tarde reuniu aproximadamente 80 pessoas, entre crianças e adultos, incluindo duas turmas de uma escola próxima à praça, a Escola Glicério Alves. Esse encontro faz parte das programações de contação de histórias e atividades culturais realizadas por meio do projeto de incentivo à cultura, pensado também para aproximar as escolas e a comunidade das experiências que acontecem na Biblioteca Comunitária Sabiá do Saibro Sábio. Mais do que oferecer uma programação, queremos que a cultura seja vivida. Que as crianças tenham acesso aos livros, aos escritores, aos artistas, às histórias e às possibilidades que nascem quando alguém apresenta um novo mundo para elas. Queremos que a Biblioteca seja esse lugar de encontro, onde a literatura possa conversar com a música, a poesia, as artes visuais, o esporte, a educação e tantas outras formas de expressão. Um espaço onde a comunidade do Extremo Sul possa encontrar não apenas atividades, mas experiências que permaneçam.

Talvez seja isso que a arte faça de mais bonito: ela vai embora, mas deixa alguma coisa. Uma pergunta. Uma lembrança. Uma vontade. Uma dúvida que continua nos acompanhando depois que o encontro termina.E talvez ontem tenhamos saído da biblioteca com uma dessas perguntas: quantas vezes alguém tentou nos dizer “eu te amo” sem usar essas palavras? Quantas vezes alguém cuidou de nós de uma maneira que não reconhecemos? E quantas vezes nós mesmos deixamos de demonstrar aquilo que sentimos porque estávamos esperando encontrar a forma certa de dizer? Felipe nos lembrou que as palavras importam. Mas também nos lembrou que as caixas importam. Que os gestos importam. Que aquilo que fazemos com aquilo que sentimos também é uma forma de linguagem. E, no fim, talvez trabalhar com aquilo que se ama seja justamente isso: encontrar maneiras de transformar aquilo que existe dentro da gente em alguma coisa que possa alcançar o outro. Agradecemos ao Felipe Deds por ter trazido sua arte, suas palavras e suas perguntas para dentro da nossa biblioteca, à Cirandar pela parceria e a cada criança, adulto, educador e escola que esteve conosco. Obrigada a todos que ocuparam esse espaço, que escutaram, criaram, perguntaram, recortaram, escreveram e, de alguma forma, ajudaram a construir essa tarde. Que a gente continue encontrando formas diferentes de dizer. E que, principalmente, continue aprendendo a reconhecer o amor quando ele chegar, mesmo quando ele vier dentro de uma caixa.