Talvez algumas frases carreguem mais do que aquilo que dizem. Talvez elas guardem histórias inteiras, escolhas difíceis, caminhos que poderiam ter sido outros. No dia 20 de agosto, uma dessas frases atravessou a Biblioteca Comunitária Sabiá do Saibro Sábio e ficou por ali, entre os livros, os olhares atentos e as perguntas de aproximadamente 50 jovens.

A frase, que também ecoa na obra Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, surgiu em uma conversa com Vinícius Brasil, o guerreiro poeta que voltou à biblioteca para mais um encontro com os nossos leitores. Vindos do 1º, 2º e 3º ano do Ensino Médio e de uma turma da EJA da Escola Glicério Alves, no Extremo Sul de Porto Alegre, os jovens encontraram em Vinícius não apenas um artista, mas uma história possível de ser reconhecida de perto. E talvez seja justamente essa proximidade que torne encontros assim tão importantes. Existe algo diferente quando a referência deixa de estar distante, em uma tela, em um livro ou em um palco, e senta diante da gente. Quando podemos olhar nos olhos de alguém e pensar: eu entendo isso. Ou ainda: eu poderia estar ali. Vinicius falou sobre escolhas, sobre os caminhos que se apresentam quando as oportunidades erradas parecem estar mais próximas do que as certas. Falou sobre a vida real, sobre problemas reais e sobre a possibilidade de encontrar na arte uma outra direção. A conversa foi intensa.Daquelas em que o silêncio também participa. Olhos atentos acompanhavam cada palavra, enquanto Vinicius compartilhava sua trajetória e mostrava, pela própria experiência, que a arte pode ser muito mais do que expressão: pode ser escolha, abrigo, cura e sobrevivência.

Porque, no fim, é bonito ter uma referência de vida tão perto dos nossos olhos. É bonito poder admirar alguém não apenas pelo artista que se tornou, mas pela história que o trouxe até aqui. Poder questionar, se inspirar, discordar, reconhecer-se e imaginar outros caminhos a partir da vida de alguém que está ali, de verdade, diante de nós. Mais uma vez, a arte apareceu como aquilo que tantas vezes ela consegue ser: uma possibilidade de permanecer. Pela música. Pela escrita. Pela poesia. Pela palavra compartilhada. Vinicius já havia estado conosco em 2025, e seu retorno à Biblioteca Comunitária Sabiá do Saibro Sábio reafirmou o quanto alguns encontros merecem ser repetidos. Há conversas que não terminam quando o evento acaba. Elas continuam ecoando em quem ouviu, nas perguntas que surgem depois, nas escolhas que talvez sejam feitas amanhã. Naquela noite, entre cerca de 50 jovens, livros e histórias, a biblioteca foi novamente lugar de encontro, entre um artista e seu público, entre experiências e possibilidades, entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos escolher ser.

“Sou guerreiro e sou poeta.”

Talvez seja esse o bonito da arte: lembrar que, mesmo em meio ao caos, ainda podemos encontrar uma palavra, uma música, uma história ou uma pessoa que nos faça escolher continuar.