Transformação Social: Rafael Bernardes

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No início do ano de 2003, uma novidade surgiu em Belém Novo, bairro do extremo sul de Porto Alegre. Um projeto social chamado WimBelemDon – referência ao torneio de Wimbledon –, que ensinava tênis para crianças a partir de oito anos (hoje a idade mínima é 6 e a máxima 18 anos). A região é considerada vazio de atendimentos, com escassos espaços de proteção à infância e à juventude. E, é nesse lugar que surge a possibilidade de se praticar um esporte “inusitado”. E, obviamente, acabou despertando o interesse de muitos.

A primeira turma abriu, mas somente crianças entre oito e nove anos podiam participar. Na metade de 2003, Marcelo Ruschel e Luciane Barcelos, criadores do projeto, foram até a escola Evarista Flores da Cunha anunciar a abertura da nova turma para os maiores. Muitas crianças se interessaram e entre elas estava Rafael Bernardes, um jovem alto e magro, que sempre que passava na frente do terreno em que tudo acontecia, ficava com muita vontade de participar.

Rafael não faltava nunca, nem quando chovia. Se apaixonou pelo esporte e logo foi se encantando com as coisas que lhe eram proporcionadas naquele lugar. Participou de torneios, – venceu alguns, perdeu outros – realizou passeios, conheceu as instalações da Sogipa, em uma visita com o projeto durante o qualificatório para a Copa Gerdau. Ele ficou fascinado com as visitas dos tenistas Fernando Meligeni – embaixador do projeto – e de Julio Silva, que na época estava muito bem ranqueado mundialmente.

Visita Fernando Meligeni / Foto: Marcelo Ruschel

Quando Julio esteve no WimBelemDon, ele contou sua história, detalhando como conseguiu se tornar jogador de tênis profissional mesmo morando em uma favela de São Paulo. Isso inspirou diversos meninos, inclusive Rafael, que já sonhava em alcançar esse objetivo. “Aquele encontro com o Julio foi muito importante na minha vida. Foi o primeiro contato com um tenista profissional e, além disso, era um cara que eu me identificava, que saiu de uma realidade semelhante à minha”, relata o ex-aluno.

Visita Julio Silva / Foto: Marcelo Ruschel

O projeto social continuava a evoluir, com aulas de português e inglês – parceria do WimBelemDon com o Yázigi –, que agregavam muito conhecimento aos educandos. O jovem se sentia muito bem em estar naquele ambiente e conseguir aprender coisas novas. O tempo foi passando, Rafael crescia, até chegar aos 15 anos de idade (a idade máxima para estar no projeto era 16 anos na época). Sendo o mais velho, já não se sentia muito motivado e decidiu sair da ONG.

Naquele ano, o jovem de 15 anos reprovou na escola e já sentia falta daquele ambiente que foi sua rotina e ajudou a moldar o seu caráter durante cinco anos. Mas ele precisava trabalhar, arrumou um emprego em uma farmácia, depois começou a fazer um curso técnico em informática, conciliando com os estudos do ensino médio. Com 18 anos se formou e, com 20, se tornou Técnico em Informática. “O curso foi muito importante na minha vida, sendo a minha primeira qualificação, mas eu pensei em desistir diversas vezes. O que não me deixava era a bolsa que eu recebia. Não era aquilo que eu queria, eu queria ser tenista”, conta Rafael.  Inclusive, esse sonho de ser tenista acabou se tornando uma pequena história em quadrinhos, desenhada pelo próprio Rafael quando ele tinha dez anos, e que retrata exatamente o que é a TRANSFORMAÇÃO SOCIAL, o principal foco do WimBelemDon.

Festa de comemoração dos 4 anos de atividades do Projeto WimBelemDon- Foto Marcelo Ruschel / POA Press

Formado, mas frustrado, o jovem foi descobrindo aos poucos um novo sonho: ser jornalista. Como sempre gostou de futebol, foi motivado pelas jornadas esportivas do rádio. Mesmo trabalhando na área da Informática, cursou o ENEM e conseguiu uma bolsa na Uniritter. Assim que surgiu um estágio na área, largou o emprego e começou o novo desafio na área dos seus sonhos. Em quatro anos de bacharelado, Rafael acabou se envolvendo em outras áreas dentro do Jornalismo e começou a estudar cinema por conta própria. No final de 2016, foi chamado por Carlos Redel, seu ex-colega de estágio, para integrar a equipe do Bode na Sala, site em que ele escreve até hoje. Frequentou cabines de imprensa, escreveu diversas críticas e auxiliou na produção de notícias. Enquanto esteve na universidade, ele manteve contato com Marcelo e realizou matérias sobre o projeto, falando sobre a campanha de compra do terreno do WimBelemDon e sobre as mudanças após conseguirem isso.

Desenho de Rafael sobre transformação social no seu ponto de vista, com 10 anos de idade

Um ano depois, no final de 2017, o jovem ex-educando do WimBelemDon se formou em Jornalismo (o terceiro da família a ter um diploma de ensino superior). Mesmo antes de terminar o curso, sofria com a possibilidade de não conseguir um emprego na área. “Eu tenho ansiedade e isso se agravou muito nos três últimos meses de estágio, por conta do medo de ficar desempregado. O mercado para o jornalista estava e ainda está muito difícil, com muitos profissionais e pouco emprego”, informa o jovem. Com 24 anos, desempregado e com contas a pagar, ele teve de fazer trabalhos como freelancer, mas não lhe davam o sustento necessário. Começou a trabalhar esporadicamente como garçom em um bar em Canoas, 40 quilômetros de distância de sua casa. Exausto e sem muitas perspectivas, aceitou um emprego em um hotel, de recepcionista.

Desacostumado a horários diferentes, se tornou o turnante da equipe, não tendo uma rotina fixa. Em alguns dias trabalhava de manhã, em outros à tarde e, de vez em quando, passava noites em claro no hotel. Porém, logo no início do seu período no novo emprego, recebeu um convite de Cristiano Santarem (recém contratado como Gerente de Comunicação do WimBelemDon) e Marcelo Ruschel. A proposta era de realizar um pequeno discurso no evento Ué?! Sopa!, que já estava na sua segunda edição. O rapaz aceitou na hora e contou um pouco da sua história para as pessoas presentes naquela noite de junho. A partir daquele momento, ressurgiu em si um outro sonho, de infância: trabalhar no WimBelemDon.

Rafael falando durante o evento Ué?! Sopa! / Foto tirada por João Pires – FotoJump

Rafael seguiu sua vida, com essa vontade, mas ciente de que seria muito difícil. Na recepção do hotel conheceu muitas pessoas, viveu experiências boas e ruins, mas a frustração de não estar trabalhando no Jornalismo começou a tomar conta. “Um pouco depois do Ué?! Sopa! eu tive princípio de depressão e foi o momento mais difícil da minha vida. Em um encontro esporádico com o Marcelo e com a Luciane comentei que não estava passando por um bom momento e eles me estenderam a mão, me confortaram. Foi um alento, mas continuei naquele estado. Comecei a tomar alguns remédios, que me fizeram bem e então segui a vida, aceitando aquela realidade”, desabafou Rafael.

Quando o jovem – que hoje tem 25 anos – menos esperava, Cristiano o convidou para conversar. Ele foi despretensioso, achando que seria um convite para participar de algum evento. Quando chegou no local, foi surpreendido com uma proposta de emprego na sua área, para atuar como Assistente de Comunicação. Aceitou na hora! “Não pensei duas vezes. Antes mesmo de me darem detalhes sobre a vaga, já tinha decidido. Era um dos meus maiores sonhos atuais trabalhar no WimBelemDon e eu já havia me imaginado agregando no projeto”.

Hoje, o rapaz é um dos novos integrantes da equipe de funcionários do WimBelemDon, juntamente com Jaleska, como mais um ex-educando que está trabalhando no lugar que ajudou tanto no seu desenvolvimento e na formação de seu caráter. No WimBelemDon, Rafael possui a missão de alavancar o nome do projeto social nas redes sociais, além de ajudar a contar histórias de superação e realização de sonhos como a dele.

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